quinta-feira, 15 de março de 2012

Aquele bolinho de chuva, por Danilo



Há quase um ano, a cada mês, entro naquela casa com fome de bolinho de chuva. Não de um bolinho qualquer, mas aquele bolinho, daquele jeito, com gosto de infância. O baralho continua em cima da mesa. Os cachorros seguem latindo. Até mesmo a alegria que - juro! - pensei que não apareceria mais, deu as caras novamente. Só mesmo o fogão é que não tornou a acender.
Deve haver algum ingrediente especial! A receita continua escrita no mesmo papel. Os ingredientes podem ser comprados no mercadinho de sempre. Provo o bolinho de chuva preparado por outra pessoa.- Mas ainda está faltando alguma coisa, tia...- Está faltando ela, Danilo, ela...Em memória de Zilda Luiza de Oliveira.
Danilo Pessôa 


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Um abraço!

terça-feira, 6 de março de 2012

Florença, o berço da arte


Não existe cidade mais artística do que Florença. Ao chegar lá nos deparamos com inúmeras esculturas, barraquinhas especializadas em réplicas das principais paisagens de Roma, grupos musicais que se espalhavam pelas esquinas e artistas que envoltos pelo ar boêmio da cidade utilizavam o chão para gravar suas obras de arte. Ao chegar no hotel conhecemos o casal de idosos que cuidava do lugar, com todo esmero e dedicação, que muitas vezes fazia com que nos sentíssemos na "casa da vovó". Mas as trapalhadas não ficaram em Roma. Todo turista deve saber, e se não sabe informo-lhe agora, que a maioria dos banheiros italianos possuem uma discreta cordinha, que apesar de não ostentar interesse se torna irresistível aos curiosos, principalmente os jornalistas. Primeiro enrosquei minhas coisas nela - é bom saber que os banheiros são bem pequenos - e por falta do que fazer, comecei a procurar alguma utilidade para tal. No auge da minha busca escuto alguém bater na porta do quarto e a falar daquele jeito italiano de dizer: o que está acontecendo com a sua amiga?!?! As meninas não sabiam o que responder, primeiro porque não entendiam o que o senhor falava, segundo porque o senhor se encontrava vermelho feito um pimentão. A situação só se resolveu quando uma das meninas entrou no banheiro e perguntou se eu estava bem, concluímos que a cordinha era algum sistema de segurança, em caso de acidentes no banheiro e nunca, nunca, mais tocamos em qualquer cordinha em banheiros
alheios.
 

"...artistas que envoltos pelo ar boêmio da cidade utilizavam o chão para gravar suas obras de arte". 





A Ponte Vecchio é um lugar que todos devem visitar, principalmente os casais apaixonados. A vista é linda. O sol reflete perfeitamente sobre o rio Arno, que possui inúmeros jardins em suas margens. Além disso, alguns artistas se apresentam na ponte, com baladas românticas que encantam os turistas e formam um verdadeiro público no meio da rua das famosas lojas de ouro de Florença. É ali que os casais enamorados prendem seus cadeados, com suas iniciais, e jogam as chaves no rio, para representar seu "amor eterno" (o famoso efeito Moccia). Gravei com minha máquina uma dupla que se apresentava no dia em que visitamos a ponte, o vídeo está abaixo.




O talento era evidente em toda a cidade e não podia deixar de gravar alguns artistas que encantavam quem passeava pelas ruas com suas vozes e performances. Os museus também eram fantásticos, mas o que marcou foi o Davi de Michelangelo. Impossível não ficar embasbacado em torno da obra do famoso artista. Diferente da maioria das esculturas italianas, cujos rostos eram sempre angelicais, Davi possui uma presença e força inigualáveis. Seu olhar é tão intenso que em meio a contemplação esquece-se que se trata de uma escultura. O espectador se vê envolto de um ar quase divino, em que os mais de três metros de altura comprovam sua perfeição em todos os detalhes.

Um abraço,

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A garota invisível


Perdia-se em meio a tantos desejos. Um emprego, um teto, uma viagem, quem sabe alguém para dividir suas angústias. Mas quem se importava? Sabia que continuaria medíocre, com sonhos rasos e objetivos que não ultrapassavam as fotos das revistas. O que mais lhe incomodava era a invisibilidade. Continuaria a mesma garota, com o mesmo olhar, que nada representa. Era apenas mais uma, mais um número, mais uma despesa e mais uma pessoa em busca de algo melhor. Será que a profundidade de seus anseios continuariam invisíveis? Ela mesma havia escolhido seu desfecho, sem essência e sem cor. A barreira que a protegia do mundo era a mesma que a impedia de existir. Sabia que suas dúvidas e medos eram os mesmos de todos aqueles que a cercavam, mas permitia que eles a dominassem e com sua capa invisível trilhava seu caminho, sem decepções e frustrações, mostrando somente para si a grandeza de seus pensamentos.


Um abraço, 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Além do retrato

Começamos 2012 descartando 2011. Ficamos 6 dias nos despedindo de 359 dias que na maioria das vezes foram péssimos. Assim, nos desfazemos de alguns pensamentos, algumas amizades e iniciamos o novo ano com todo cuidado e zelo, que lá pelas tantas de março também é descartado. Todo esse despejo é reunido em álbuns que guardam momentos alegres, engraçados, vergonhosos e talvez dispensáveis. De vez em quando são lembrados e tem seu momento de glória nos álbuns virtuais, mas... um clique e a memória do que se foi desaparece. Semana passada estive com meus avós e em meio ao ócio das férias nos deliciamos com velhos álbuns de fotos. Fotos amassadas, amareladas com aquele cheiro de passado. Vimos o biso e a bisa, o tio que é a cara do sobrinho, meus avós aos dezoito anos, iniciando uma longa história. Em meio aquelas folhas estavam diferentes momentos, diferentes histórias, a memória de uma família, o seu legado. Como descartar tudo aquilo e ignorar o significado de cada retrato? As gerações se comunicam através desses vestígios de memória, que estão escondidos no fundo do armário. Não nos comunicamos somente por meio de palavras, sons, imagens, movimentos. Essa é a essência da fotografia. Em a Câmara Clara, o filósofo francês Roland Barthes vai além e procura na fotografia algo que é capaz de "tocá-lo" independente daquilo que seu olhar busca. Ele diz que "o órgão do Fotógrafo não é o olho (...), é o dedo: o que está ligado ao disparador da objetiva". Desse modo, a fotografia é uma metonímia, uma marca deixada pelo fotógrafo e que afeta o olhar de quem observa. Através daqueles retratos tocamos o diploma que meu avô orgulhosamente segurava e nos deslumbramos com a brisa do mar, sentida pela primeira vez por meu pai, ainda criança. Um novo ano começou, mas as memórias daqueles 359 dias e de muitos outros ainda tocam e ainda são lembrados. Saudosismo à parte, mas são nesses momentos que entendo velhos hábitos, algumas manias e decisões. Olhando o passado entendemos o presente e projetamos um novo futuro.


Um abraço,

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

De tudo fica um pouco

O doutor da alegria, vestido de piada, insistiu. Beija meu nariz, beija. Todos caíram na risada. Até Dona Irene, senhora séria, do tipo de birote. Mal acreditavam que estavam ali novamente. Há pouco Camila havia saído do hospital, devido à um mau súbito que assim como veio se escafedeu em alguns meses, tempo que não foi suficiente para que se familiarizassem com o hospital. Pelo contrário, ao acordar, sempre pensavam que poderiam ver pela janela as lindas flores do sítio. Ela nunca vira a mãe tão abatida. Irene, no alto de sua fortaleza, gerenciou família, hospital e médicos, enquanto sua filha estava doente. Agora, filha pajeava mãe. O mantra que Irene repetia para si naquela época, ecoou na mente de Camila todos os dias. “Depois do mau tempo, a rosa nasce”. O grande e vermelho nariz de borracha foi a deixa para que todos extravasassem. Naquele momento, estavam livres das preocupações, àquelas que se alimentam daqueles que transitam nos quartos dos hospitais. O riso foi o início da recuperação de Camila e talvez fosse o de sua mãe.
A enfermidade serviu para aproximar mãe e filha. Quando não estavam juntas no sítio, estavam na sala de quimioterapia ou no consultório médico. Sim, o grande “C”, que não escolhe, nem privilegia ninguém, acomodou-se sorrateiramente na vida de Irene. Fazia oito meses que estavam nessa rotina. Oito meses que Irene estava na casa da filha, oito meses que em todo fim de semana a família se reunia, oito meses de reconhecimento. Reconheceu-se o tudo que Irene havia deixado na vida de seus filhos. Foi nesse período que Irene e Camila descobriram a importância do laço invisível que surge no nascimento da vida. Irene recebeu 32 visitas dos filhos, 16 camisolas de algodão, que combinavam com a fronha de seu travesseiro, 8 x 10 “eu te amo” dos netos. Surpreendeu-se ao ver a semente que havia plantado e regado com tanto carinho, brotar, crescer e florescer, ultrapassando gerações – sorte de poucos, que na velhice, ficam à margem da sociedade, que diz que deu, diz que dá, diz que deus-dará. Mas mais surpresa estava Camila. Sua mãe não indagava ou maldizia as circunstâncias, muito menos o arquiteto de tamanho destino. Deus sabe o que faz, dizia Irene. E enquanto fez, Camila descobriu quanto sua mania de arrumação, a força dos netos ao verem sua avó sofrer, o carinho dos sobrinhos ao relembrarem bons momentos, retomavam àquela que lhe havia colocado no mundo. Em oito meses Irene percebeu o quanto era especial e Camila o quanto aquele momento era precioso. A fortaleza que Irene havia formado, cada pedra erguida em cada mau tempo, estava ruindo e só sobrou uma única rosa.
As enfermeiras disputavam à tapa quem estaria com Irene e faziam tudo para que “Dona Irene” não se afligisse com a cirurgia. Ela agradecia acariciando gentilmente o rosto de suas cuidadoras. Alívio. Foi o que sentiu Camila, ao saber da decisão médica. A cirurgia resolveria parte do cotidiano repetitivo e exaustivo que só os enfermos e aqueles que convivem com eles experimentam, mas a espinha arrepiava. Sua mãe estava tão fraca... então lembrou: Deus sabe o que faz. No fim de semana da cirurgia toda família se reuniu novamente dispostos a amanhecer no hospital. Amanheceram. A cirurgia aconteceu pela metade. Os médicos encontraram outro obstáculo e decidiram não intervir. Anoiteceram. Camila se assustou ao ver a mãe ainda mais debilitada, no entanto, o inusitado bom humor de Irene a confortou. Olha minha situação, filha, falou Irene, com os cabelos cortados e sem as dentaduras - o grande “C” havia dado as caras. Quando viu seus netos, expressou satisfação e até soltou “ressuscitou?” para aqueles que moravam longe. Três dias. Foi o tempo para que a música mudasse de tom. O tempo da morte não faz hora, nem vela. De dia a alma vai, à tarde o corpo se despede e à noite tudo finda à sete palmos. Em três dias Irene já não interagia com seus familiares ou se orgulhava de seu único neto homem, jóia sempre lembrada de sua coleção, para aborrecimento das outras netas. Com dificuldades para respirar, balbuciava algumas palavras e ocasionalmente dirigia seu olhar para Camila. Guerreira, Irene não desistiria sem lutar, e Camila sabia disso. Ela sabia também que o olhar não era só de gratidão, mas representava toda a força daquele laço invisível. Para que deixá-la valsando quando a eternidade lhe parecia muito melhor? Pensou Camila. Deus sabe o que faz. Com um nó no peito, com a cara dura, a filha se sentiu na obrigação de aliviar o esforço da mãe e estender a bandeira branca. “Deus enxugará todas as nossas lágrimas, mãe”. Irene suspirou, não antes de ver suas irmãs e sorrir para a caçula, a que tinha mais sua atenção. Os médicos a sedaram aos poucos, o soro correu pelo equipamento e a cada gota seus olhos esmoreceram. Não era mais Irene que estava ali, mas um corpo, uma matéria. Não era seu bom humor, sua força, sua ranhetice. Antes que sua essência sumisse, a família se reuniu em torno da cama e agradeceu à matriarca tudo que haviam aprendido, todo amor, toda correção. Uma última vez unida, a família fez uma oração. Deus sabe o que faz. Com o pouco de vida que lhe restava, Irene esbravejou: Amém. Camila, segurando suas mãos, colocou a cabeça em seu peito e derramou uma única lágrima. Muito ficou deste pó.
Um abraço!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sem Janta, por Jéssica Kruck

 












  Esse relato pode parecer desnecessariamente dramático, mas levando em consideração seu teor ficcional, talvez os arrombos de mal gosto estilístico sejam relevados. Tamanho arrego logo na introdução se dá pela falta de experiência que julgo ter sobre o quesito janta. Lá pelas tantas da minha infância em cidade cosmopolita, eu bem lembro de jantar rápido pra dormir e talvez encontrar aqueles que diziam ser meus pais.    Pelo menos eram eles que pagavam a escola e pra quem eu entregava as lembrancinhas de datas comemorativas.  Mais pra frente, numa experiência interiorana, sempre tinha algum parente pra jantar alguns dias da semana lá em casa. Era legal, daquele jeito familiar. Foi o período no qual mais vivi cercada de relacionamentos familiares e apadrinhamentos.  Agora, como nos últimos anos, as refeições noturnas não existem mais e as lembranças do que já chamei de janta seguem cada vez mais esparsas na memória. Ninguém se encontra, ninguém se toca e quase todos temem uma reunião à mesa. Essa virou enfeite, como há muito não se via naquela casa.  E aí quando eu fico encantada com a casa dos meus amigos e suas reuniões familiares, eles me perguntam: na sua casa não tem? E eu respondo: Janta? Não. Janta, não tem não.

Jéssica Kruck


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Um abraço!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ainda sob o sol de Roma

Ver, tocar e respirar a história da cidade foi inesquecível. Visitamos palácios, igrejas, e o incrível Coliseu. Mesmo repleto de turistas, que surgiam por traz das ruínas, em cima das escadas e se aglomeravam nas grades, todos exibiam em seus rostos uma expressão de contemplação, quase reverência. Pesava em cada olhar o significado que o mais famoso ponto turístico de Roma possui. O Vaticano foi outra visita que merece ser contada. O museu de lá esboçou um pouco da beleza artística que marcou toda a viagem. Tetos sensacionais (sim, tetos), sempre ornamentados e com alguma história para contar. Também vimos inúmeras esculturas e pinturas de diversos artistas. Como não podia faltar, houve um pequeno "barraco" e sim, no Vaticano. Ao tentar comprar alguns chaveiros, me desentendi com o dono do estabelecimento na hora do pagamento. Já que também possuo sangue fervido, não me contive. Joguei no balcão (e na cara do nervoso italiano) tudo que eu e minha prima (que observava a cena atônita) havíamos separado e em inglês- espanhol- italiano- português esbravejei que jamais voltaria ali, o que fez com que o dono rogasse inúmeras pragas. 



Pesava em cada olhar o significado que o mais famoso ponto turístico de Roma possui.

Barracos à parte, a perfeição da Basílica de São Pedro nos deixou sem ar, assim como os italianos. Foi ali que vimos o "homem mais bonito do mundo". Na verdade, foi em Roma o começo do que podemos chamar de concurso para o "homem mais bonito do mundo". Os italianos são altos, magros, possuem um leve bronzeado, cabelos bem escuros com sobrancelhas espessas, que amparam um olhar irresistível. No famoso bairro Trastevere, podemos ver a essência do charme italiano. O bairro possui ruas estreitas, com ar antigo, roupas penduradas nas varandas e muitos bares, de pubs à restaurantes com cardápio exclusivamente não- turístico.  Desde o início da noite o movimento é intenso. Muitos jovens, muitos turistas e muitos italianos galanteadores. Víamos por todos os lados turistas, felizes da vida (por sinal), escoltadas pelos belos ragazzi. 

Isso foi  MAIS um pouco de Roma.

Um abraço,

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sob o sol de Roma

*Pequeno relato sobre a viagem à Europa feita em outubro de 2011 na companhia de Renata Marcelino, Daiane Nogueira e Lilian Lima.


Espera-se de Roma muita coisa, mas nada se compara ao que a cidade tem a oferecer. Em meio a vespas, que passavam aos montes e com toda velocidade, pudemos presenciar o que seria o engarrafamento italiano. Muito barulho, muitos mini- carros e muitos italianos batendo boca. Mas havia um grande diferencial: ao mesmo tempo que o burburinho do trânsito gritava que a cidade era apenas mais uma grande capital, os prédios, monumentos e casas contestavam qualquer rótulo e juntavam o novo com o antigo harmoniosamente. A emoção era quase incontida, o berço da história estava à nossa frente. Dividimos o táxi com duas indianas e já percebemos que a cidade também harmonizava diferentes culturas e etnias, que estavam ali a passeio ou procurando oportunidades. Já no hotel, nos aliviamos por chegar sã e salvas, pelo taxista não ter cobrado um preço exorbitante e pelo recepcionista ter boa pinta. Até que chegamos no quarto e vimos que nem tudo são brioches italianos. Desde o aeroporto pudemos perceber que os italianos são acima de tudo geniosos. Andavam em suas vespas com seus ternos impecáveis, óculos de sol e bolsas de couro nos ombros, como se a vida não exigisse esforço algum. Entretanto, apenas um apertãozinho no calo fazia o sangue ferver. E como. Mesmo no centro da cidade era possível perceber os gestos exagerados, as mãos que tentavam acompanhar o diálogo, a cara vermelha e a explosão de palavras que felizmente não entendíamos. 


 A emoção era quase incontida, o berço da história estava à nossa frente. 


A elegância corria solta. As mulheres, muito esguias, sempre bem arrumadas, usavam, ousavam um estilo único, o que era péssimo para minha dor no cotovelo. Elas abusavam de mini- saias, mini- shorts, lenços e posso afirmar que elas sim, sabem usar um birote. Curiosíssimas, fizemos nossa primeira refeição em um restaurante que não tinha mais de cinco mesas e se encontrava em um charmoso beco. À meia luz, as mesas eram enquadradas por um toldo branco e algumas flores e plantas que enfeitavam as paredes. A rua estava a poucos metros do escondido lugar e conseguíamos ver seu movimento. A pizza, sem dúvida, não era brasileira. A casca era fina, com molho de tomate e queijo por cima, acompanhada pelo vinho da casa. Mas o ponto alto foi a macarronada de um restaurante familiar enfrente a uma velha igreja, em uma das típicas praças da cidade. Mal chegamos e a "mama" que atendia os fregueses começou a discutir com a mesa ao lado, que lógico, era de turistas. Mesmo assustadas, resolvemos ficar e pedir os pratos, o que em toda viagem sempre gerou muito ansiedade em todas. Naquele restaurante todos falavam italiano, somente italiano. Ao ver nossas caras vacilantes a "mama" não teve dúvidas. Escolheu nossos pratos, as bebidas e a sobremesa e saiu sem deixar tempo para choro nem vela. E que fantástica foi a refeição.
Em todos os restaurantes, esperava acinosamente a sobremesa. Os sorvetes, ou melhor, gelatos, eram irresistíveis no calor que enfrentamos em pleno outono europeu. De todas as cores e sabores, primeiro o comíamos com os olhos e depois com o estômago mesmo.

Sobremesa após visita ao Coliseu.


   
Isso foi um pouco de Roma.


Um abraço,

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Perto de uma mulher, são só garotos


Os sutiãs rasgados e a chamada "Revolução sexual" mudaram muita coisa na então (e sempre) complicada relação homem - mulher. Todas as mudanças, desde o ingresso da mulher no mercado de trabalho à ascensão feminina no quadro político brasileiro causaram impacto não só nas lutas feministas, mas na história dos pobres homens. Eles não souberam se encaixar nesse novo contexto, perdendo seu domínio também na hora da sedução. Com a liberação feminina moral, social e profissional veio a permissão para seduzir, sem rodeios e entrelinhas. As mulheres deixaram de lado (ou deveriam) artifícios que a objetivavam e passaram a verbalizar seus desejos e vontades, tal qual os homens. Não é mais preciso inúmeras indiretas, saias, sombras, sapatos (pelo menos para as mais corajosas). Tudo é resolvido com um papo direto e reto. Aí está o problema. As mulheres conquistaram o lugar de desejantes e os homem foram obrigados a ocupar o lugar de desejados. Resultado: o famoso bordão "Hoje não, querida, estou com dor de cabaça" mudou de gênero e até intitula a reportagem  da revista TPM¹ em uma de suas últimas edições. A reportagem levanta a ausência de cartilha cultural nessa nova relação. Assim, tanto o homem, quanto a mulher se deparam com dúvidas como: "Será que não sou homem?" e "Será que seduzir não é coisa de vadia?". Ou seja, tudo ficou mais complicado do que era, principalmente para aquelas que ainda não acostumaram com o papel de desejantes. Se as mulheres são difíceis de entender, os homens são praticamente impossíveis, principalmente quando abraçam esse novo papel (desejados), mesmo envoltos por antigos preconceitos, que persistem, como mostra o estudo "Mulher no mercado de trabalho: perguntas e respostas", divulgado pelo IBGE. A pesquisa traz que as mulheres ainda ganham em torno de 72,3% do rendimento dos homens, diferença que leva em consideração pessoas com mesma escolaridade. Esse número impacta quando pensamos que as mulheres representam  hoje 61,2% das trabalhadoras com 11 anos ou mais de estudo (contra 53,2% de homens). Como faço parte do grupo dos novos desajustados, acho tão mais fácil a velha tríplice: charme, violão e palavras bonitas (só charme e palavras bonitas servem, também). Talvez esteja muito fácil ou só precise treinar novas cantadas, vai saber.

Explica tudo, Elvis!





Abraço!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Depois da Janta, por Danilo Pessôa


  Não tomo café da manhã. Como apenas o necessário no almoço. Belisco besteiras durante a tarde. Mas devo confessar que o meu forte é a janta.
  Ao contrário do almoço, na janta é permitido sentir aquele soninho depois de comer, sem peso na consciência. Afinal, o dia está no seu fim e, no fim, o nosso destino será necessariamente a boa e velha cama.
  A janta é livre. As senhoras donas de casa assistem à novela enquanto comem. Os jovens navegam na internet. As famílias tradicionais jantam a mesa como nos comerciais de margarina. Sem censura, sem preconceito.
  Come-se pau-sa-da-men-te. O tempo não é mais um inimigo.
  Depois da janta, é permitido cochilar no sofá, assistir ao Jornal da Globo, ler um bom livro e até escrever para o blog Depois da Janta. Sem pressa, sem neuras, apenas por hobby!

E viva a janta!



Danilo Pessôa


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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Etnia Caduca

Para não deixar dúvidas: sou neta de italiana e  japonês (por parte de mãe), portanto, filha de mestiça com um descendente de português (meu pai), que era neto de baiano e uma mineirinha, uai. Ou seja, corre em minhas veias sangue italiano, japonês, português, africano e por aí vai. História que não difere da de vários brasileiros, que compõe a formação da identidade brasileira. Assim, os imigrantes não poderiam ser outra coisa além de protagonistas nessa formação, pois modificaram o sistema e se tornaram parte integrante da nação, desafiando ideais de como o país deveria ser imaginado e construído. Esses mesmos imigrantes criaram gêneros orais e escritos, em que as diferenças étnicas foram reformuladas para se apropriar da identidade brasileira. Muitos saíram da divisão bipolar preto e branco em busca da "brasileiridade". Apesar da brancura ter sido requisito para a inclusão do imigrante na "raça" brasileira em vários momentos, vide a campanha do "embranquecimento" dos séculos passados, o que significava ser branco mudou entre 1850 e 1950, época em que entraram no país sírios, libaneses e japoneses. Todavia, a brasileiridade nada mais é do que a união, e não mistura, de diferentes povos. Talvez por isso o brasileiro não sinta o mesmo orgulho e identificação com seu país do que o norte- americano, por exemplo. O pensamento eugênico de uma raça pura homogênea (e branca) que se infiltrou no país, inspirou essa política do "embranquecimento" e se concentrou na política oligárquica, que perdura até hoje. Desse modo, histórica e estruturalmente a Nação não se reconhece no Estado. Ou seja, sem identidade e sem representatividade (e até mesmo sem saber o que é a Nação brasileira), o brasileiro segue se indagando como dividir afro-descendentes, de brancos, pardos, índios, amarelos, etc. Quando na verdade as questões são mais profundas, além da cor da pele, envolvendo (poeticamente falando ou zeca baleiramente falando) mais a alma, suas intenções e tentativas de se inserir a algo.


Zeca Baleiro, Alma não tem cor.


Um abraço,

*A Negociação da identidade nacional, Jeff Lesser.

domingo, 6 de novembro de 2011

Tudo vira Massa

Como em toda família italiana, a macarronada não podia faltar. Domingo havia sido instituído o dia oficial do macarrão e Dona Geny honrava esta data, sempre que podia. Eu e meus primos, adorávamos. Saíamos da mesa lambuzados dos pés à cabeça. Encontrávamos molho de tomate nos cabelos, roupa, nas mãos e até nos dedos dos pés, o que deixava a hora do almoço muito mais divertida. A receita da Nona está na página Da Vovó, no especial Itália: 



LAMBUZEM-SE! 

Samuel Marcelino Junior, vulgo Dim (primo).

sábado, 5 de novembro de 2011

Acesso e sou acessível, logo existo


Com a entrada da pós- modernidade, novas tecnologias e novos meios de comunicar-se, surgiram novas posturas que nada acrescentam, tanto para a sociedade, quanto para os meios de comunicação tradicionais (como a televisão) e inovadores (como a internet). Não interessa a mensagem que é passada, ninguém quer saber nada, ninguém quer pensar a respeito de nada (CONTRERA, 2004). O público quer estar no meio, fazer parte e ser visto. Quer reconhecer o outro somente na medida em que o outro lhe permite ser incluído, confirmando a máxima trazida pelo livro "Jornalismo e Realidade": acesso e sou acessível, logo existo. Aí esta o motivo de programas caracterizados pelo senso geral como sensacionalistas, caso do Brasil Urgente do apresentador Datena, obterem números recordes de audiência. A dona de casa, o trabalhador, o aposentado das classes menos favorecidas não querem apenas ter acesso à informação, querem estar presentes nelas. E nada melhor do que fazê-lo por meio da máxima espetacularização, que nos tira do estado anestésico. Anestésico porque essa mesma pós-modernidade instituiu o império da novidade, onde contraditoriamente nada mais é sentido como novo. Isso resulta na troca da informação nova pelo inusitado. Pronto. A partir daí nos deparamos com inúmeras simulações, imagens explícitas e bonecas sendo jogadas pela janela. Prato cheio para tais programas e,  porque não, para o público, que fomenta ser incluído de alguma maneira.


Você tem fome de que?

Um abraço,

*Jornalismo e Realidade: A crise de representação do real e a construção simbólica da realidade, Malena Segura Contrera.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Chico Estrela

Mariana Marcelino (irmã) e Francisco Wada (Chico Estrela).

Era férias de verão. Pela janela do meu quarto vi uma cena inusitada. Como todo oriental, meu avô tinha modos conservadores e excessiva serenidade. Costumava passar as tardes vendo televisão usando sua marca registrada: uma confortável regata branca que permitia que seu pequeno corpo se movimentasse livremente. Nesses momentos fazia o que queria, espirrava escandalosamente e dormia, mesmo sentado. Sua arredondada cara e nariz característico não negavam suas raízes, era um típico japonês. Costumávamos chamá-lo de Chico Estrela. Não era carinhoso, mas nos surpreendia com delicados beliscões, sua forma de mostrar afeto. Fanático por futebol, ao assistir os jogos de seu time e presenciar uma vitória dava alguns brados de alegria, mas suas finas e fracas pernas não o deixavam passar disso. Sempre foi sábio e se algo não lhe agradasse, seu olhar falava por si só. Como todo avô, ele também amanhecia rabugento, mas na maior parte do tempo era dono de uma serenidade e paciência sem igual. Nos poucos momentos em que o abraçava o que mais me chamava atenção era o aroma forte e ao mesmo tempo suave que seu abraço tinha. Ele era a coluna de nossa família, nele todos confiavam. Lembro-me que naquele dia meu avô dava gargalhadas tão fortes, que seu corpo pendia para trás; quando me aproximei e peguei em sua mão me surpreendi: as peripécias do Chaves haviam desmoronado toda seriedade que o velho Chico conservava.

*Texto escrito em 2006. Homenagem à  Maria Elisa, Maria Cristina e Maria Alice (tias e mãe).


Um abraço,

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

À Francesa

O futuro da humanidade, de uma nação e de um indivíduo é determinado por uma série de acontecimentos que já se foram e acompanhados por um presente feito por objetivos. Esses objetivos diferenciam-se de geração a geração e poucos permanecem ao longo da história. É o caso da "nova era" prometida pela Revolução Francesa*, baseada nos pilares da igualdade, fraternidade e liberdade. A igualdade foi retomada pela Proclamação da República brasileira, por exemplo, há 120 anos, permitindo a soberania do povo; a fraternidade foi revivida pela queda do muro de Berlim, há 20 anos, marcando o fim de dois blocos antagônicos; e a liberdade, por sua pluri-significância, seja metafísica, física ou filosófica, sempre estará presente no homem e na sua história. No entanto, esses mesmos preceitos revolucionários, que permaneceram durante a história, inspiradores de tantas utopias, acabaram reinterpretados e recontextualizados. Mesmo após a instalação da democracia no país, evidencia-se a manipulação de parte da sociedade; apesar do incentivo a fraternidade, multiplica-se o número de movimentos separatistas e intervenções militares; e a liberdade é constantemente cercada por dogmas e padrões sociais inalcançáveis. Ideais originados pelos renascentistas, iluministas e revolucionários se encontram à merce de releituras, que possibilitam sua adaptação a novas necessidades e diferentes pressões. Conceitos históricos podem ser facilmente (e erroneamente) utilizados  por governos autoritários, por exemplo, que partem de metas coerentes e idealizadas e resultam na total supressão das vontades da população. Na medida em que conceitos históricos se perdem em uma sociedade imediatista e em tais releituras, ideais que deveriam ser passados ao longo da história são ignorados, anulando-se a relação natural entre passado, presente e futuro, que permite que erros sejam aprendidos e perdas sejam lembradas.  


*Meu mais novo affaire, talvez pelo fato de daqui a pouco estar frente a frente a Bastille (texto escrito em 2009).


Um abraço,

sábado, 24 de setembro de 2011

A gente fica de olho

Jogue a primeira pedra quem nunca assistiu algum reality show. A mais erudita das pessoas, ao passar pela televisão, não resisti em dar uma espiada no barraco armado na telinha.  Generalizações à parte, a verdade é que as pessoas assistem esse tipo de programa e não percebem o que realmente as motiva a assisti-lo: vivemos em um mundo cão, onde todos são obrigados a aderir a lei do mais forte e desde a infância buscar ser o melhor, mais resistente e inteligente. Eu mesma estudei em um colégio que incentivava os alunos a competirem entre si e a buscarem a qualquer custo o melhor resultado. Assim, entramos no mercado de trabalho dispostos e preparados a competir com outros profissionais. O tipo de pressão que esse ciclo gera, geralmente causa no indivíduo estresse, sentimento de não - realização (quando se é o mais fraco) e muitas vezes um total vazio que o leva a dizer: o que estou fazendo aqui? O que isso tem a ver com o Big Brother e a Fazenda? Esses tipos de programas funcionam como escape desse ciclo vicioso. A pessoa de casa escolhe seu representante e acompanha toda sua trajetória, suas escolhas, suas estratégias, torcendo para que massacre os outros participantes do programa. Transfere-se a competição diária do indivíduo para o reality show e para o participante escolhido como preferido e é ainda mais gostoso quando ele vence todos os seus adversários depois de 8 horas pendurado em um cabo de aço. A pressão de competir a todo momento não se restringe a classe, etnia, cultura, enfim, atinge toda a sociedade. Generalizar o público e acusá-lo de acultural, superficial e medíocre é simplesmente cair no senso comum. Discutir as motivações das ações humanas e desvendar os seus por ques é muito mais pedagógico. Não estou justificando a qualidade ou o intuito dos reality shows, mas quando vistos sob essa ótica, faz sentido a sua popularidade e as inúmeras edições que conquistam.


Um abraço,

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Hasta la vista, baby!

O tempo voou e daqui a catorze dias quem voará serei eu! No início de outubro viajarei pela Europa junto com minha prima e duas amigas. Mochileiras de primeira viagem, discutimos muito sobre todos os detalhes, mas como todo bom brasileiro, deixamos para acertar as coisas duas semanas antes do tão esperado dia. Passaremos por Itália, França e Espanha, em uma maratona de quinze dias. A ansiedade é imensa, mas, "fat" como sou, me acalmo só de pensar nas delícias da culinária desses países! Sem dúvida postarei por aqui refeições que deixarão muita água na boca de quem fica, isso se minha indigestão de tanto comer macarrão permitir! O post é  homenagem a viagem e a todas as novas experiências que estão por vir.



TCHAU, MÃE!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Texto Enjoadinho


No começo o choro era abafado, mas a medida que ia pegando ar criava vida e pousava nos ouvidos cansados de sua mãe. Ela havia passado a noite inteira à espreita, como se um olho permanecesse fechado e o outro aberto, preocupada com cada movimento do pequenino. De pequeno, não tinha nada. Havia nascido grande e robusto, mas a mãe aproveitava enquanto sua mãosinha ainda podia ser gentilmente abraçada pela palma de sua mão. Além disso, como o garoto puxara o pai, logo, logo estaria maior que ela, que já ia pensando em meios de paparicar sua cria do alto dos seus 1.60 metros de altura. Léo era a cópia de seu pai, expressivo como ele, com uma grande cabeleira, um sorrisão e a cara de sapeca mais precoce que já existiu, mas, ainda assim, continha a serenidade do olhar de sua mãe. O casal ainda não acreditava na mistura. Como pode dois se identificarem e se reconhecerem em um? O medo logo era aliviado pelo cheirinho de talco que o pequeno deixava no travesseiro da cama. Os frufrus, os braulhinos e os berros eram sempre bem vindos e vivenciados com toda intensidade, tanta que saiam atordoados, não só pelos berros, mas por todas as histórias que ouviam sobre filhos alheios. Concluíam: Filhos? Melhor não tê-los. Meleca dali, fraldas daqui, noites em claro, conta bancária às moscas, esposa atarefada, esposo preocupado. Mas se não o temos, como sabê-lo? Agora, a história que juntos escreviam tinha um delicioso desfecho, pra que pensar em uma vida sem as mamadeiras de bichinho, as colônias de bebê e as roupinhas azuis? No começo pensaram no impacto que essa vida traria, não teriam tempo para traçar os planos que haviam formado ainda jovens, mas perceberam que agora outros objetivos haviam sido estabelecidos, e tão bons quanto.


*Poema enjoadinho, Vinícius de Moraes.


Um abraço,

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Poderia se Chamar Labirinto


O amor é um dos sentimentos mais antigos da humanidade. No século XVIII, Álvares de Azevedo  já evocava "Sofrer e amar essa dor..."¹. Mas, afinal, o que é amor? Atualmente, confunde-se amor e desejo, num pensamento totalmente hedonista, que torna esse sentimento efêmero. Imergidos em um contexto visual, nos aproximamos daqueles que aparentemente nos interessam e o "eu te amo" é conjugado vulgarmente na boca de qualquer um. Cultua-se, desde os séculos passados, padrões de beleza impostos por diversos fatores, como cultura e formação social, antes divulgados por imponentes esculturas de Vênus e hoje estampados em qualquer meio de comunicação. Esse padrão, conforme a região e sua história, varia da total devoção ao tornozelo cuidadosamente exposto pela vestimenta árabe ao culto à mulher super-siliconizada norte-americana. Seja qual for o país ou cultura, cada padrão estético autoritariamente submete a sociedade a exigências inalcançáveis que anulam a subjetividade do belo e até mesmo do amor. Montesquieu afirmou em "Ensaio Sobre o Gosto" que os encantos se encontravam mais no espírito do que no rosto, porque um belo rosto se mostra logo e não esconde nada, mas o espírito apenas se mostra gradualmente, causando surpresa e criando intensas paixões. Entretanto, a paixão intensa é jogada à total banalização e hoje o amor deixa a desejar para muitas pessoas. Há algumas semanas, no programa Saia Justa, as apresentadoras discutiam um novo tipo de rede social: a rede social da traição. Ela tem o objetivo de facilitar a relação extra-conjugal e no Brasil, segundo o site da Veja², mais de 500.000 usuários  (70% homens) utilizam o serviço, que garante que seus usuários jamais deixem rastros. Um dos entrevistados, que participa da rede, afirmou "Busco uma história passageira. Não pretendo me separar, pois tenho um carinho enorme por minha mulher e nosso filho". Até a traição foi banalizada. Para mim a definição de amor se aproxima da música "Não deveria se chamar amor" de Paulinho Moska, ou seja, é reconhecido em sua própria indefinição. 
"O AMOR que eu te tenho é um afeto tão novo Que não deveria se chamar AMOR De tão irreconhecível, tão desconhecido Que não deveria se chamar AMOR/ Poderia se chamar NUVEM Pois muda de formato a cada instante Poderia se chamar TEMPO Porque parece um filme a que nunca assisti antes/ Poderia se chamar LABIRINTO Pois sinto que não conseguirei escapulir Poderia se chamar AURORA Porque vejo um novo dia que está por vir/ Poderia se chamar ABISMO Pois é certo que ele não tem fim Poderia se chamar HORIZONTE Que parece linha reta mas sei que não é assim/ Poderia se chamar PRIMEIRO BEIJO Porque não lembro mais do meu passado Poderia se chamar ÚLTIMO ADEUS Que meu antigo futuro foi abandonado/ Poderia se chamar UNIVERSO Porque sei que não o conhecerei por inteiro Poderia se chamar PALAVRA LOUCA Que na verdade quer dizer: aventureiro/ Poderia se chamar SILÊNCIO Porque minha dor é calada e meu desejo é mudo E poderia simplesmente não se chamar Para não significar nada e dar sentido a tudo".  

 "Não deveria se chamar amor", Paulinho Moska.


¹Álvarez de Azevedo, "Amor" http://www.revista.agulha.nom.br/avz.html#amor 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sonho Meu

O sonho e a realidade são dimensões relativamente distintas, onde o primeiro explora o "eu real", ultrapassando a barreira da aparência e da sociedade. Nesse plano, alcançamos e exercitamos a plenitude de nossos poderes, alimentando nosso desejo de procurar coisas maiores e melhores. No entanto, quando sonhamos um sonho já idealizado por outra pessoa, que não se encaixa em nossa realidade, acabamos presos e impedidos de prosseguir. É o caso das novelas, que se encarregam em criar um modelo de vida ambicionado pelo público, entretanto, que proporciona metas inatingíveis. A maioria da população utiliza a televisão como meio de entreterimento e fonte de informações básicas. As intuições e insights sobre as coisas se perdem no assitir incessante e nos papos familiares que se baseiam no que é visto na TV. Assistir a esse aparelho e a sua programação virou um hábito e hábitos são enganosos.  Essa semana mais uma novela foi ao ar e é "surpreendente" a trama girar em torno da elite carioca ou da busca da protagonista pobre (para os padrões televisivos) em mudar sua vida, entrando para a mesma elite retratada. Cria-se a ilusão que no decorrer da novela particular de cada um o final será triunfante, quando na verdade, raramente isso acontece. A maior parte da população possui uma carga horária de 40 a 44 horas, esforço exigido para que se viva com o mínimo de conforto, o que acaba consumindo tempo e espaço antes reservados para planejar o futuro. Assim, sem tempo para sonhar e exercer sua individualidade o indivíduo se projeta na evolução dos personagens televisivos e vive um sonho que não o pertence. Não é à toa que somos cercados por pessoas descaracterizadas que tentam a todo custo se enquadrar nos estereótipos encontrados nos roteiros televisivos. 

Um abraço,