Ver, tocar e respirar a história da cidade foi inesquecível. Visitamos palácios, igrejas, e o incrível Coliseu. Mesmo repleto de turistas, que surgiam por traz das ruínas, em cima das escadas e se aglomeravam nas grades, todos exibiam em seus rostos uma expressão de contemplação, quase reverência. Pesava em cada olhar o significado que o mais famoso ponto turístico de Roma possui. O Vaticano foi outra visita que merece ser contada. O museu de lá esboçou um pouco da beleza artística que marcou toda a viagem. Tetos sensacionais (sim, tetos), sempre ornamentados e com alguma história para contar. Também vimos inúmeras esculturas e pinturas de diversos artistas. Como não podia faltar, houve um pequeno "barraco" e sim, no Vaticano. Ao tentar comprar alguns chaveiros, me desentendi com o dono do estabelecimento na hora do pagamento. Já que também possuo sangue fervido, não me contive. Joguei no balcão (e na cara do nervoso italiano) tudo que eu e minha prima (que observava a cena atônita) havíamos separado e em inglês- espanhol- italiano- português esbravejei que jamais voltaria ali, o que fez com que o dono rogasse inúmeras pragas.
Pesava em cada olhar o significado que o mais famoso ponto turístico de Roma possui.
Barracos à parte, a perfeição da Basílica de São Pedro nos deixou sem ar, assim como os italianos. Foi ali que vimos o "homem mais bonito do mundo". Na verdade, foi em Roma o começo do que podemos chamar de concurso para o "homem mais bonito do mundo". Os italianos são altos, magros, possuem um leve bronzeado, cabelos bem escuros com sobrancelhas espessas, que amparam um olhar irresistível. No famoso bairro Trastevere, podemos ver a essência do charme italiano. O bairro possui ruas estreitas, com ar antigo, roupas penduradas nas varandas e muitos bares, de pubs à restaurantes com cardápio exclusivamente não- turístico. Desde o início da noite o movimento é intenso. Muitos jovens, muitos turistas e muitos italianos galanteadores. Víamos por todos os lados turistas, felizes da vida (por sinal), escoltadas pelos belos ragazzi.
Os sutiãs rasgados e a chamada "Revolução sexual" mudaram muita coisa na então (e sempre) complicada relação homem - mulher. Todas as mudanças, desde o ingresso da mulher no mercado de trabalho à ascensão feminina no quadro político brasileiro causaram impacto não só nas lutas feministas, mas na história dos pobres homens. Eles não souberam se encaixar nesse novo contexto, perdendo seu domínio também na hora da sedução. Com a liberação feminina moral, social e profissional veio a permissão para seduzir, sem rodeios e entrelinhas. As mulheres deixaram de lado (ou deveriam) artifícios que a objetivavam e passaram a verbalizar seus desejos e vontades, tal qual os homens. Não é mais preciso inúmeras indiretas, saias, sombras, sapatos (pelo menos para as mais corajosas). Tudo é resolvido com um papo direto e reto. Aí está o problema. As mulheres conquistaram o lugar de desejantes e os homem foram obrigados a ocupar o lugar de desejados. Resultado: o famoso bordão "Hoje não, querida, estou com dor de cabaça" mudou de gênero e até intitula a reportagem da revista TPM¹ em uma de suas últimas edições. A reportagem levanta a ausência de cartilha cultural nessa nova relação. Assim, tanto o homem, quanto a mulher se deparam com dúvidas como: "Será que não sou homem?" e "Será que seduzir não é coisa de vadia?". Ou seja, tudo ficou mais complicado do que era, principalmente para aquelas que ainda não acostumaram com o papel de desejantes. Se as mulheres são difíceis de entender, os homens são praticamente impossíveis, principalmente quando abraçam esse novo papel (desejados), mesmo envoltos por antigos preconceitos, que persistem, como mostra o estudo "Mulher no mercado de trabalho: perguntas e respostas", divulgado pelo IBGE. A pesquisa traz que as mulheres ainda ganham em torno de 72,3% do rendimento dos homens, diferença que leva em consideração pessoas com mesma escolaridade. Esse número impacta quando pensamos que as mulheres representam hoje 61,2% das trabalhadoras com 11 anos ou mais de estudo (contra 53,2% de homens). Como faço parte do grupo dos novos desajustados, acho tão mais fácil a velha tríplice: charme, violão e palavras bonitas (só charme e palavras bonitas servem, também). Talvez esteja muito fácil ou só precise treinar novas cantadas, vai saber.
O amor é um dos sentimentos mais antigos da humanidade. No século XVIII, Álvares de Azevedo já evocava "Sofrer e amar essa dor..."¹. Mas, afinal, o que é amor? Atualmente, confunde-se amor e desejo, num pensamento totalmente hedonista, que torna esse sentimento efêmero. Imergidos em um contexto visual, nos aproximamos daqueles que aparentemente nos interessam e o "eu te amo" é conjugado vulgarmente na boca de qualquer um. Cultua-se, desde os séculos passados, padrões de beleza impostos por diversos fatores, como cultura e formação social, antes divulgados por imponentes esculturas de Vênus e hoje estampados em qualquer meio de comunicação. Esse padrão, conforme a região e sua história, varia da total devoção ao tornozelo cuidadosamente exposto pela vestimenta árabe ao culto à mulher super-siliconizada norte-americana. Seja qual for o país ou cultura, cada padrão estético autoritariamente submete a sociedade a exigências inalcançáveis que anulam a subjetividade do belo e até mesmo do amor. Montesquieu afirmou em "Ensaio Sobre o Gosto" que os encantos se encontravam mais no espírito do que no rosto, porque um belo rosto se mostra logo e não esconde nada, mas o espírito apenas se mostra gradualmente, causando surpresa e criando intensas paixões. Entretanto, a paixão intensa é jogada à total banalização e hoje o amor deixa a desejar para muitas pessoas. Há algumas semanas, no programa Saia Justa, as apresentadoras discutiam um novo tipo de rede social: a rede social da traição. Ela tem o objetivo de facilitar a relação extra-conjugal e no Brasil, segundo o site da Veja², mais de 500.000 usuários (70% homens) utilizam o serviço, que garante que seus usuários jamais deixem rastros. Um dos entrevistados, que participa da rede, afirmou "Busco uma história passageira. Não pretendo me separar, pois tenho um carinho enorme por minha mulher e nosso filho". Até a traição foi banalizada. Para mim a definição de amor se aproxima da música "Não deveria se chamar amor" de Paulinho Moska, ou seja, é reconhecido em sua própria indefinição.
"O AMOR que eu te tenho é um afeto tão novo Que não deveria se chamar AMOR De tão irreconhecível, tão desconhecido Que não deveria se chamar AMOR/ Poderia se chamar NUVEM Pois muda de formato a cada instante Poderia se chamar TEMPO Porque parece um filme a que nunca assisti antes/ Poderia se chamar LABIRINTO Pois sinto que não conseguirei escapulir Poderia se chamar AURORA Porque vejo um novo dia que está por vir/ Poderia se chamar ABISMO Pois é certo que ele não tem fim Poderia se chamar HORIZONTE Que parece linha reta mas sei que não é assim/ Poderia se chamar PRIMEIRO BEIJO Porque não lembro mais do meu passado Poderia se chamar ÚLTIMO ADEUS Que meu antigo futuro foi abandonado/ Poderia se chamar UNIVERSO Porque sei que não o conhecerei por inteiro Poderia se chamar PALAVRA LOUCA Que na verdade quer dizer: aventureiro/ Poderia se chamar SILÊNCIO Porque minha dor é calada e meu desejo é mudo E poderia simplesmente não se chamar Para não significar nada e dar sentido a tudo".