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terça-feira, 6 de março de 2012

Florença, o berço da arte


Não existe cidade mais artística do que Florença. Ao chegar lá nos deparamos com inúmeras esculturas, barraquinhas especializadas em réplicas das principais paisagens de Roma, grupos musicais que se espalhavam pelas esquinas e artistas que envoltos pelo ar boêmio da cidade utilizavam o chão para gravar suas obras de arte. Ao chegar no hotel conhecemos o casal de idosos que cuidava do lugar, com todo esmero e dedicação, que muitas vezes fazia com que nos sentíssemos na "casa da vovó". Mas as trapalhadas não ficaram em Roma. Todo turista deve saber, e se não sabe informo-lhe agora, que a maioria dos banheiros italianos possuem uma discreta cordinha, que apesar de não ostentar interesse se torna irresistível aos curiosos, principalmente os jornalistas. Primeiro enrosquei minhas coisas nela - é bom saber que os banheiros são bem pequenos - e por falta do que fazer, comecei a procurar alguma utilidade para tal. No auge da minha busca escuto alguém bater na porta do quarto e a falar daquele jeito italiano de dizer: o que está acontecendo com a sua amiga?!?! As meninas não sabiam o que responder, primeiro porque não entendiam o que o senhor falava, segundo porque o senhor se encontrava vermelho feito um pimentão. A situação só se resolveu quando uma das meninas entrou no banheiro e perguntou se eu estava bem, concluímos que a cordinha era algum sistema de segurança, em caso de acidentes no banheiro e nunca, nunca, mais tocamos em qualquer cordinha em banheiros
alheios.
 

"...artistas que envoltos pelo ar boêmio da cidade utilizavam o chão para gravar suas obras de arte". 





A Ponte Vecchio é um lugar que todos devem visitar, principalmente os casais apaixonados. A vista é linda. O sol reflete perfeitamente sobre o rio Arno, que possui inúmeros jardins em suas margens. Além disso, alguns artistas se apresentam na ponte, com baladas românticas que encantam os turistas e formam um verdadeiro público no meio da rua das famosas lojas de ouro de Florença. É ali que os casais enamorados prendem seus cadeados, com suas iniciais, e jogam as chaves no rio, para representar seu "amor eterno" (o famoso efeito Moccia). Gravei com minha máquina uma dupla que se apresentava no dia em que visitamos a ponte, o vídeo está abaixo.




O talento era evidente em toda a cidade e não podia deixar de gravar alguns artistas que encantavam quem passeava pelas ruas com suas vozes e performances. Os museus também eram fantásticos, mas o que marcou foi o Davi de Michelangelo. Impossível não ficar embasbacado em torno da obra do famoso artista. Diferente da maioria das esculturas italianas, cujos rostos eram sempre angelicais, Davi possui uma presença e força inigualáveis. Seu olhar é tão intenso que em meio a contemplação esquece-se que se trata de uma escultura. O espectador se vê envolto de um ar quase divino, em que os mais de três metros de altura comprovam sua perfeição em todos os detalhes.

Um abraço,

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Além do retrato

Começamos 2012 descartando 2011. Ficamos 6 dias nos despedindo de 359 dias que na maioria das vezes foram péssimos. Assim, nos desfazemos de alguns pensamentos, algumas amizades e iniciamos o novo ano com todo cuidado e zelo, que lá pelas tantas de março também é descartado. Todo esse despejo é reunido em álbuns que guardam momentos alegres, engraçados, vergonhosos e talvez dispensáveis. De vez em quando são lembrados e tem seu momento de glória nos álbuns virtuais, mas... um clique e a memória do que se foi desaparece. Semana passada estive com meus avós e em meio ao ócio das férias nos deliciamos com velhos álbuns de fotos. Fotos amassadas, amareladas com aquele cheiro de passado. Vimos o biso e a bisa, o tio que é a cara do sobrinho, meus avós aos dezoito anos, iniciando uma longa história. Em meio aquelas folhas estavam diferentes momentos, diferentes histórias, a memória de uma família, o seu legado. Como descartar tudo aquilo e ignorar o significado de cada retrato? As gerações se comunicam através desses vestígios de memória, que estão escondidos no fundo do armário. Não nos comunicamos somente por meio de palavras, sons, imagens, movimentos. Essa é a essência da fotografia. Em a Câmara Clara, o filósofo francês Roland Barthes vai além e procura na fotografia algo que é capaz de "tocá-lo" independente daquilo que seu olhar busca. Ele diz que "o órgão do Fotógrafo não é o olho (...), é o dedo: o que está ligado ao disparador da objetiva". Desse modo, a fotografia é uma metonímia, uma marca deixada pelo fotógrafo e que afeta o olhar de quem observa. Através daqueles retratos tocamos o diploma que meu avô orgulhosamente segurava e nos deslumbramos com a brisa do mar, sentida pela primeira vez por meu pai, ainda criança. Um novo ano começou, mas as memórias daqueles 359 dias e de muitos outros ainda tocam e ainda são lembrados. Saudosismo à parte, mas são nesses momentos que entendo velhos hábitos, algumas manias e decisões. Olhando o passado entendemos o presente e projetamos um novo futuro.


Um abraço,

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Etnia Caduca

Para não deixar dúvidas: sou neta de italiana e  japonês (por parte de mãe), portanto, filha de mestiça com um descendente de português (meu pai), que era neto de baiano e uma mineirinha, uai. Ou seja, corre em minhas veias sangue italiano, japonês, português, africano e por aí vai. História que não difere da de vários brasileiros, que compõe a formação da identidade brasileira. Assim, os imigrantes não poderiam ser outra coisa além de protagonistas nessa formação, pois modificaram o sistema e se tornaram parte integrante da nação, desafiando ideais de como o país deveria ser imaginado e construído. Esses mesmos imigrantes criaram gêneros orais e escritos, em que as diferenças étnicas foram reformuladas para se apropriar da identidade brasileira. Muitos saíram da divisão bipolar preto e branco em busca da "brasileiridade". Apesar da brancura ter sido requisito para a inclusão do imigrante na "raça" brasileira em vários momentos, vide a campanha do "embranquecimento" dos séculos passados, o que significava ser branco mudou entre 1850 e 1950, época em que entraram no país sírios, libaneses e japoneses. Todavia, a brasileiridade nada mais é do que a união, e não mistura, de diferentes povos. Talvez por isso o brasileiro não sinta o mesmo orgulho e identificação com seu país do que o norte- americano, por exemplo. O pensamento eugênico de uma raça pura homogênea (e branca) que se infiltrou no país, inspirou essa política do "embranquecimento" e se concentrou na política oligárquica, que perdura até hoje. Desse modo, histórica e estruturalmente a Nação não se reconhece no Estado. Ou seja, sem identidade e sem representatividade (e até mesmo sem saber o que é a Nação brasileira), o brasileiro segue se indagando como dividir afro-descendentes, de brancos, pardos, índios, amarelos, etc. Quando na verdade as questões são mais profundas, além da cor da pele, envolvendo (poeticamente falando ou zeca baleiramente falando) mais a alma, suas intenções e tentativas de se inserir a algo.


Zeca Baleiro, Alma não tem cor.


Um abraço,

*A Negociação da identidade nacional, Jeff Lesser.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

À Francesa

O futuro da humanidade, de uma nação e de um indivíduo é determinado por uma série de acontecimentos que já se foram e acompanhados por um presente feito por objetivos. Esses objetivos diferenciam-se de geração a geração e poucos permanecem ao longo da história. É o caso da "nova era" prometida pela Revolução Francesa*, baseada nos pilares da igualdade, fraternidade e liberdade. A igualdade foi retomada pela Proclamação da República brasileira, por exemplo, há 120 anos, permitindo a soberania do povo; a fraternidade foi revivida pela queda do muro de Berlim, há 20 anos, marcando o fim de dois blocos antagônicos; e a liberdade, por sua pluri-significância, seja metafísica, física ou filosófica, sempre estará presente no homem e na sua história. No entanto, esses mesmos preceitos revolucionários, que permaneceram durante a história, inspiradores de tantas utopias, acabaram reinterpretados e recontextualizados. Mesmo após a instalação da democracia no país, evidencia-se a manipulação de parte da sociedade; apesar do incentivo a fraternidade, multiplica-se o número de movimentos separatistas e intervenções militares; e a liberdade é constantemente cercada por dogmas e padrões sociais inalcançáveis. Ideais originados pelos renascentistas, iluministas e revolucionários se encontram à merce de releituras, que possibilitam sua adaptação a novas necessidades e diferentes pressões. Conceitos históricos podem ser facilmente (e erroneamente) utilizados  por governos autoritários, por exemplo, que partem de metas coerentes e idealizadas e resultam na total supressão das vontades da população. Na medida em que conceitos históricos se perdem em uma sociedade imediatista e em tais releituras, ideais que deveriam ser passados ao longo da história são ignorados, anulando-se a relação natural entre passado, presente e futuro, que permite que erros sejam aprendidos e perdas sejam lembradas.  


*Meu mais novo affaire, talvez pelo fato de daqui a pouco estar frente a frente a Bastille (texto escrito em 2009).


Um abraço,

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Atrás do Reflexo

Sempre acordava às seis da manhã, amargava seu café como só os bons fazem, mesmo em dia de chuva, e discutia ferrenhamente com seus irmãos quem seria incubido de lavar a mísera louça que estava em cima da pia. Depois da vitória triunfante, olhava-se no espelho e divagava em pensamentos cercados de esperança sobre um futuro bom. Logo em seguida, despedia-se de sua mãe, com o mesmo beijo rotineiro e maroto de sua infância e partia para a vida. Mas, naquele dia, em meio à discussão e aos pensamentos, deparou com uma novidade que estava escancarada em seu espelho. Percebeu que tudo havia mudado, o cabelo castanho agora era loiro, a pele rosada agora estava encoberta por pintas e os arcos escuros em volta dos olhos eram evidentes. Notou que cada nova linha de expressão escondia uma crise, uma vitória, uma experiência. Seu sorriso estava mais sutil, talvez menos sincero, e em seu olhar só observava um maior grau de miopia. O que não havia mudado eram os sonhos que, ainda assim, profetizavam um final feliz. Talvez tivesse se tornado mais persistente, mas chegou à conclusão de que apenas não havia perdido a fé. Entristeceu-se  com a voraz força do tempo, mas viu em seu reflexo a possibilidade de pelo menos terminar sua história.


Um abraço,